Previsão para seca de 2026 piora e Manaus pode ter restrição à navegação entre outubro e novembro

Foto: Ronaldo Siqueira
O cenário para a seca de 2026 no Amazonas ficou mais preocupante. Novas projeções do Laboratório de Modelagem do Sistema Climático Terrestre (LabClim), da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), indicam intensificação do El Niño, redução das chuvas e possibilidade de o nível dos rios chegar a uma faixa de atenção para a navegação entre outubro e novembro.
Os dados foram apresentados nesta quarta-feira (19), durante exposição na Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam). Segundo o coordenador do LabClim, professor Francis Wagner Silva Correia, os modelos matemáticos foram atualizados e apontam um quadro mais severo do que o apresentado anteriormente durante reunião do Conselho de Administração da Suframa.
“Exatamente, o cenário mudou. Nós rodamos os nossos modelos matemáticos e temos um novo cenário, que está um pouco mais preocupante para este ano de 2026”, afirmou o pesquisador, ao responder a um questionamento do deputado Wilker Barreto.
El Niño deve ganhar força
De acordo com o LabClim, o El Niño já está configurado na categoria forte e a previsão é de que evolua para muito forte entre setembro, outubro e novembro.
O fortalecimento do fenômeno interfere na distribuição das chuvas e tende a reduzir a precipitação principalmente nas áreas central e norte da Bacia Amazônica.
No Amazonas, os efeitos já aparecem principalmente na bacia do Rio Negro. O monitoramento apresentado pelo laboratório mostra chuvas abaixo da média na região central e norte da Amazônia e vazante acelerada.
As projeções do LabClim indicam chuvas 26% abaixo da média em setembro e 32% abaixo da média em outubro na Bacia Amazônica.
As temperaturas também devem subir. Os modelos indicam temperatura 1,2°C acima da média em setembro e 2,2°C acima da média em outubro.
Rio Negro ainda está dentro da normalidade
Apesar do agravamento das projeções climáticas, os principais rios monitorados ainda permanecem, neste momento, dentro dos padrões esperados para o período.
Na medição apresentada pelo LabClim, o Rio Negro estava em 25,84 metros em Manaus e recuava perto de 10 centímetros por dia. A queda é considerada normal nesta fase do ciclo hidrológico.
Em Tabatinga, o Solimões também está em descida, com redução aproximada de 11 centímetros por dia, mas permanece dentro da normalidade para o período.
Em Itacoatiara, o Rio Amazonas apresenta queda, mas também segue dentro do padrão esperado neste momento.
A situação é diferente no Rio Madeira. Em Humaitá, o nível permanece acima da normalidade e, segundo a avaliação apresentada, não há indicação de seca severa para essa calha em 2026.
Alerta para outubro e novembro
O maior ponto de atenção está nos próximos meses. Modelos desenvolvidos pelo LabClim e pela UEA, inclusive com uso de inteligência artificial, indicam continuidade da queda do Rio Negro.
O laboratório utiliza o modelo hidrológico estocástico HIRA e um modelo de inteligência artificial para projetar o comportamento dos rios com meses de antecedência.
Uma das projeções aponta o Rio Negro próximo de 19 metros em setembro. O rio ainda estaria dentro da normalidade para o período, embora abaixo da mediana histórica.
Se o ritmo de descida continuar e o El Niño mantiver intensidade elevada, o Rio Negro poderá entrar, entre outubro e novembro, em uma faixa de alerta relacionada à navegabilidade.
Em Itacoatiara, as projeções também indicam que o Rio Amazonas poderá ficar abaixo da normalidade e se aproximar de uma faixa de atenção durante a vazante.
Navios podem enfrentar restrições
O impacto mais sensível para Manaus poderá ocorrer na logística. O LabClim fez projeções para a vazante justamente para avaliar os possíveis efeitos sobre a chegada de navios à capital.
A apresentação aponta possibilidade de restrição ao calado dos navios a partir de outubro. Calado é a profundidade que a embarcação ocupa abaixo da superfície da água. Quanto menor o nível do rio, maiores podem ser as limitações para embarcações de grande porte e carregadas.
“Possivelmente, caso tenhamos o El Niño forte lá em outubro e novembro, nós podemos ter restrição para os calados dos navios que chegam a Manaus”, explicou Francis Wagner.
Nesse cenário, uma das alternativas apontadas pelo pesquisador seria realizar operações de transbordo em Itacoatiara. Parte da carga dos grandes navios seria transferida para embarcações capazes de navegar com menor profundidade até Manaus.
A medida seria necessária para reduzir riscos ao abastecimento da capital e ao funcionamento do Polo Industrial de Manaus.
Seca intensa, mas abaixo de 2023 e 2024
Apesar dos sinais de agravamento, o LabClim não projeta, neste momento, uma repetição das secas históricas registradas nos dois anos anteriores.
A conclusão apresentada pelo laboratório é de que o Amazonas deverá enfrentar uma seca intensa em 2026, mas não semelhante às registradas em 2023 e 2024.
O grau do impacto dependerá principalmente da intensidade alcançada pelo El Niño e do comportamento das chuvas nos próximos meses.
As projeções são utilizadas para antecipar possíveis impactos sobre navegação, indústria, comércio e abastecimento no Amazonas.




Nenhum comentário