18/07/2026

Lei do multimídia provoca críticas e levanta temor de precarização no jornalismo

         

Norma sancionada em 2026 é questionada por entidades e profissionais, que apontam impactos no mercado de trabalho da comunicação

A regulamentação da profissão de multimídia no Brasil voltou ao centro das discussões após reunião do Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional, realizada nesta segunda-feira (4), no Senado. O debate tratou dos impactos da Lei nº 15.325/2026, sancionada em janeiro, que reconhece oficialmente profissionais que atuam em diferentes plataformas digitais.

A legislação define o profissional multimídia como trabalhador apto a exercer atividades integradas em áreas como produção, edição, planejamento e distribuição de conteúdos em formatos como texto, vídeo, áudio e redes sociais. A proposta teve origem em projeto apresentado em 2013 e foi aprovada pelo Congresso em 2025.

Durante a reunião, representantes de entidades de trabalhadores criticaram a norma e apontaram possíveis efeitos sobre o mercado de trabalho. O conselheiro Paulo Zocchi afirmou que a regulamentação pode ampliar a precarização da profissão. “O jornalista já é, por natureza, um profissional multimídia. O que está em curso é uma tentativa de precarização do nosso trabalho”, declarou.

Entre as preocupações levantadas estão a possibilidade de sobreposição de funções e a ausência de critérios mais claros de formação para determinadas atividades, como produção de conteúdo digital e atuação em redes sociais.

Por outro lado, representantes do setor empresarial defenderam a legalidade do processo de aprovação da lei. O conselheiro Samir Nobre destacou que a proposta foi analisada e aprovada pelo Congresso Nacional dentro dos trâmites previstos.

Outro ponto discutido foi a necessidade de regulamentação complementar. Para o conselheiro Ricardo Ortiz, a solução passa por ajustes na legislação vigente. Segundo ele, a criação de uma nova categoria profissional sem definições claras pode gerar conflitos entre áreas já estabelecidas.

### Profissão em transformação

O debate ocorre em um contexto mais amplo de mudanças no mercado da comunicação. A jornalista Samira de Castro, presidente da Federação Nacional dos Jornalistas, avalia que o cenário atual é marcado por pressões crescentes sobre a categoria.

“É um momento desafiador. Nós somos atravessados não só pela violência cotidiana, mas pela precarização cada vez mais aguda da nossa profissão”, afirmou.

A discussão sobre a regulamentação do jornalismo ganhou força a partir de 2009, quando o Supremo Tribunal Federal decidiu extinguir a exigência de diploma para o exercício da profissão. A decisão atendeu a recurso do Ministério Público Federal e do Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão do Estado de São Paulo, sob o argumento de que a obrigatoriedade poderia restringir a liberdade de expressão prevista na Constituição.

Desde então, entidades da categoria apontam mudanças no perfil do mercado de trabalho. Dados do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos indicam que o número de jornalistas com carteira assinada caiu de 60.899 em 2013 para 49.917 em 2023, uma redução de cerca de 18%.

A sanção da Lei nº 15.325 reacendeu o debate sobre os limites entre diferentes funções na comunicação e a necessidade de atualização das normas diante do avanço das tecnologias digitais.

A regulamentação da nova profissão ainda deve passar por etapas complementares, incluindo a definição de regras específicas por meio de decretos e novos debates com participação de entidades representativas.

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