O custo da falta de educação no trânsito: Manaus eleva canteiros a 30 centímetros em 10 avenidas para conter infrações
Prefeitura adota novo padrão para dificultar conversões irregulares; primeiras três intervenções devem consumir cerca de R$ 8 milhões
Quanto custa aos cofres públicos a falta de educação de parte dos condutores de Manaus? Uma prática recorrente nas ruas da capital ajuda a dimensionar essa conta. Motociclistas e motoristas que transformam canteiros, calçadas e passagens de pedestres em extensão da pista levaram a Prefeitura a investir milhões de reais na remodelação dessas estruturas.
Flagrantes feitos pelo Fatos Marcantes mostram a prática em diferentes pontos da cidade. Na avenida Constantino Nery, nas proximidades de uma faculdade particular, motociclistas atravessam o canteiro para escapar do trânsito ou realizar conversões irregulares. Situações semelhantes foram registradas nas proximidades do Detran-AM, inclusive em áreas de grande circulação de veículos e pedestres.
Em alguns pontos, motociclistas utilizam justamente os rebaixamentos destinados à acessibilidade e à travessia de pedestres para alcançar o canteiro. A manobra divide um espaço destinado a quem está a pé com veículos motorizados e amplia o risco de acidentes.
O problema persiste apesar da fiscalização. Dados do Instituto Municipal de Mobilidade Urbana (IMMU) apontam mais de 3 mil autuações desde o início deste ano relacionadas a esse tipo de irregularidade.
O Código de Trânsito Brasileiro classifica como infração gravíssima transitar com veículo sobre calçadas, passeios e canteiros centrais, entre outros espaços destinados aos pedestres ou à separação das pistas. Mesmo com previsão de multa, a repetição da conduta levou o município a recorrer também a uma solução física.
A Prefeitura determinou a reconstrução dos canteiros centrais de dez importantes avenidas de Manaus. Uma das primeiras intervenções ocorre na avenida Margarita, na zona Norte, onde o modelo convencional está sendo substituído por uma estrutura com meio-fio de 30 centímetros de altura.
A mudança tem um objetivo específico: tornar mais difícil a passagem de motocicletas e automóveis sobre o canteiro.
“Nós aumentamos para 30 centímetros a altura desse meio-fio e estamos concretando um calçamento no entorno. A gente realmente está fazendo isso para coibir, talvez, a falta de educação de alguns condutores de querer passar por cima da calçada”, afirmou o prefeito Renato Junior.
Segundo o prefeito, a decisão foi tomada diante da frequência de retornos e conversões ilegais.
“É algo que, como cidadão, sempre me revoltou muito. Motos e carros passam por cima, fazendo retornos e conversões que são ilegais, geram transtornos e também causam acidentes”, declarou.
A tentativa de criar uma barreira física para uma conduta já proibida pela legislação tem impacto direto sobre o orçamento municipal. As primeiras três intervenções devem consumir aproximadamente R$ 8 milhões dos cofres públicos.
O investimento coloca em discussão uma consequência menos evidente das infrações de trânsito: além dos riscos de acidentes e dos transtornos à mobilidade, comportamentos individuais podem obrigar o poder público a direcionar recursos para adaptações da própria infraestrutura urbana.
A solução, porém, não é absoluta. Os canteiros precisam preservar pontos de travessia e acessibilidade, com rebaixamentos destinados principalmente a pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida. Esses espaços não podem simplesmente acompanhar a elevação adotada no restante da estrutura.
Na prática, portanto, continuam existindo pontos mais baixos que podem ser utilizados irregularmente por motociclistas. A elevação dos canteiros cria uma dificuldade adicional, mas não elimina a necessidade de fiscalização, educação no trânsito e respeito às regras.
Pedestres ouvidos pelo Fatos Marcantes defendem intervenções para reduzir a circulação de motocicletas em áreas destinadas a quem anda a pé. Entre as medidas citadas está justamente o aumento da altura dos canteiros nos locais onde as manobras irregulares são frequentes.
A Prefeitura aposta agora no novo desenho para reduzir essas ocorrências em dez grandes avenidas. O resultado das intervenções ainda terá de ser medido. Mas a conta inicial já permite uma reflexão: quando o respeito às regras não é suficiente, quanto a cidade precisa gastar para tentar transformar educação no trânsito em uma barreira de concreto?
Nenhum comentário