14/07/2026

Seleção francesa denuncia ataques racistas antes de semifinal contra a Espanha na Copa do Mundo

         

Jogadores e autoridades dos dois países reagiram a declarações discriminatórias contra a equipe francesa, que tem sido alvo de comentários sobre a origem de atletas

A seleção francesa de futebol chegou à semifinal da Copa do Mundo 2026 em clima de preparação e descontração. Vídeos publicados nas redes sociais mostram os jogadores dos “Les Blues” treinando antes do confronto contra a Espanha, marcado para esta terça-feira (14), nos Estados Unidos.

Fora dos gramados, porém, o ambiente é de mobilização contra ataques racistas sofridos pela equipe ao longo da competição. Jogadores, federações e autoridades dos dois países se manifestaram para repudiar declarações discriminatórias relacionadas à origem de atletas da seleção francesa.

Um dos episódios mais recentes ocorreu após a publicação de um artigo do ex-primeiro-ministro espanhol Mariano Rajoy, que governou a Espanha entre 2011 e 2018. No texto, ele afirmou que a França possui um “plantel de altíssimo nível”, mas fez uma referência depreciativa à presença de jogadores descendentes de imigrantes, principalmente de antigas colônias africanas.

A declaração gerou reação de jogadores espanhóis, como Pau Cubarsí e Borja Iglesias, além do atual primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez. Em uma publicação nas redes sociais, Sánchez classificou a fala do antecessor como uma vergonha e afirmou: “que vença o melhor e que perca o racismo”.

Ataques refletem avanço de discursos discriminatórios

Para o diretor-executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, Marcelo Carvalho, os comentários contra a seleção francesa refletem discursos associados a grupos de extrema-direita que ganharam espaço em diferentes países.

Segundo ele, o cenário político atual tem contribuído para que algumas pessoas se sintam mais seguras para expressar manifestações racistas, especialmente no ambiente digital.

“O momento político do Brasil e do mundo, com ascensão da extrema-direita, faz com que as pessoas se sintam mais confiantes para expressar o racismo”, avaliou.

Carvalho também destacou que a sensação de anonimato nas redes sociais contribui para o aumento dos ataques. Segundo ele, muitas pessoas acreditam que não serão identificadas ou responsabilizadas pelas manifestações.

Fifa registra aumento de ataques racistas durante torneio

Durante a Copa do Mundo 2026, a Federação Internacional de Futebol (Fifa) informou ter identificado um crescimento expressivo nos ataques discriminatórios nas redes sociais.

Na primeira fase da competição, foram registrados 89 mil conteúdos abusivos, número 13 vezes maior que o contabilizado na Copa de 2022. Do total, 11% tinham caráter racial, índice superior ao registrado no mundial anterior.

Segundo Marcelo Carvalho, a entidade passou a adotar medidas mais rígidas para combater os casos de racismo. Entre as ações está o Protocolo Vini Jr., criado para combater manifestações racistas no futebol.

Desde o início da competição, dois jogadores — um do Paraguai e outro do Equador — foram expulsos após utilizarem o gesto de cobrir a boca com as mãos durante discussões em campo. A ação passou a ser proibida porque poderia dificultar a identificação de possíveis ofensas.

“Antes, era a palavra de um contra a de outro, e a vítima saía prejudicada”, afirmou Carvalho.

Para o especialista, a postura dos jogadores, das federações e das autoridades representa uma mudança na forma como os casos são tratados.

“É um movimento que transforma tanto o futebol como a sociedade”, declarou.

Mbappé também foi alvo de declarações racistas

Antes do episódio envolvendo Mariano Rajoy, o atacante francês Kylian Mbappé também foi alvo de comentários considerados racistas após a vitória da França sobre o Paraguai.

A senadora paraguaia Celeste Amarilla fez declarações contra o jogador, que respondeu afirmando que a manifestação era indigna de uma representante parlamentar.

Mbappé recebeu apoio da Federação Francesa de Futebol e de autoridades do país. A entidade classificou as declarações como “absolutamente desprezíveis e inaceitáveis” e informou que acionou a Procuradoria francesa.

O órgão abriu investigação por injúria agravada e incitação ao ódio e à violência.

“Como alguém pode proferir tais palavras? Essas declarações são criminosas e repreensíveis”, afirmou a federação.

Para Marcelo Carvalho, a diferença em relação a casos anteriores é que atletas e instituições passaram a reagir de forma mais firme.

“Não estamos mais deixando os casos ‘passarem batido’”, afirmou.

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