18/07/2026

Desmatamento avança em áreas privadas e expõe novo entrave para metas climáticas do Brasil

         

Plano Clima prevê corte de até 67% nas emissões até 2035, mas enfrenta resistência do setor agropecuário e dificuldades na aplicação do Código Florestal

O Brasil entrou em uma nova fase no enfrentamento do desmatamento. Após a redução da devastação em terras públicas, o avanço da derrubada de vegetação em propriedades privadas passou a concentrar a maior parte do problema e se tornou um dos principais desafios do Plano Clima, estratégia lançada pelo governo federal em março de 2026.

O plano organiza as metas nacionais para reduzir emissões de gases de efeito estufa e cumprir compromissos firmados no Acordo de Paris. A previsão é cortar entre 59% e 67% das emissões até 2035, tomando como referência os níveis registrados em 2005. Nesse cenário, o desmatamento segue como o principal fator de pressão ambiental no país.

Dados recentes indicam uma mudança relevante no perfil da devastação. Em 2021, áreas públicas não destinadas — mais vulneráveis à grilagem — respondiam por 36,7% do desmatamento. Em 2024, esse percentual caiu para 33%. No mesmo período, os imóveis rurais passaram de 24,4% para 33,8%, tornando-se a principal origem da perda de cobertura vegetal.

“Historicamente, o foco estava nas terras públicas, mas agora o desafio migra para as áreas privadas, o que exige outro tipo de estratégia”, explicou a especialista em Código Florestal do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), Jarlene Gomes.

A mudança de cenário impacta diretamente as metas climáticas. O setor de uso da terra — que inclui o desmatamento — responde por 39,5% das emissões líquidas do país. Dentro desse recorte, as áreas privadas concentram cerca de 44% das emissões, o que reforça a necessidade de controle mais rigoroso sobre esses territórios.

Para enfrentar esse quadro, o Plano Clima estabelece uma meta mais ambiciosa para propriedades rurais, com redução de emissões acima de 100% em relação a 2022. Na prática, isso significa que essas áreas devem deixar de emitir carbono e passar a atuar como “sumidouros”, por meio da regeneração florestal e da recuperação de solos.

Apesar da diretriz, a implementação enfrenta resistência. Durante a elaboração do plano, o Ministério da Agricultura contestou a proposta inicial que atribuía ao setor agropecuário a maior parte da responsabilidade pela redução das emissões. O impasse atrasou a divulgação do documento e resultou na revisão das metas.

Inicialmente, o agro ficaria responsável por reduzir 54% das emissões. Após negociações, esse percentual foi reduzido para 7%, e a condução das ações passou a ser compartilhada com o Ministério do Meio Ambiente.

“O ponto mais sensível, que é conter o desmatamento, acabou sendo transferido para a governança ambiental, o que dilui a responsabilidade do setor produtivo”, afirmou Marta Salomon, do Instituto Talanoa.

Outro entrave está na execução do Código Florestal, principal instrumento legal para regular o uso da terra no país. A legislação exige que propriedades na Amazônia Legal preservem até 80% da vegetação nativa, mas a aplicação da norma ainda é limitada.

Dados do próprio Plano Clima indicam que cerca de 90% do desmatamento em imóveis privados ocorre em áreas que deveriam ser protegidas, o que configura ilegalidade.

O controle dessas áreas depende de ferramentas como o Cadastro Ambiental Rural (CAR), que reúne informações sobre os imóveis. No entanto, o sistema é autodeclaratório e ainda enfrenta dificuldades operacionais. Na Amazônia, cerca de 65% dos cadastros aguardam análise, o que compromete a fiscalização.

“Hoje, o desafio não é mais criar regras, mas fazer com que elas sejam cumpridas. A implementação ainda está muito aquém do necessário”, avaliou Jarlene Gomes.

Nos últimos anos, o país retomou políticas de fiscalização ambiental, com operações mais frequentes de órgãos federais, uso de monitoramento por satélite e embargos automáticos em áreas desmatadas. Essas medidas ajudaram a reduzir a pressão sobre terras públicas, mas não foram suficientes para conter o avanço em propriedades privadas.

O Plano Clima funciona como um guia estratégico e depende da articulação entre União, estados e municípios para sair do papel. Sem controle efetivo do desmatamento nessas áreas, especialistas avaliam que o Brasil terá dificuldade para cumprir suas metas climáticas.

“O país tem uma estratégia definida, mas o resultado depende da execução. O plano precisa ser implementado de forma concreta para produzir efeito”, concluiu Marta Salomon.

Com informações do Site InfoAmazônia

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