Bate-bocas expõem crise no STF; julgamento sobre Moraes tem retomada marcada para as 13h em Manaus

A primeira parte do julgamento que pode autorizar uma investigação contra Alexandre de Moraes terminou sem votação e com fortes discussões entre ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). A sessão foi suspensa por causa do horário eleitoral e tem retomada marcada para as 14h de Brasília — 13h em Manaus.
Na volta, o plenário deverá analisar primeiro uma questão de ordem apresentada por Flávio Dino. Entre as possibilidades estão o adiamento do julgamento para 23 de setembro, a análise conjunta das acusações envolvendo Moraes e André Mendonça, a inclusão de outros ministros citados nos documentos do Banco Master e o sorteio de um novo relator.
O que o STF está julgando
A sessão extraordinária foi convocada para analisar a Petição 16.662, que reúne informações extraídas do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, antigo controlador do Banco Master.
O relatório produzido pela Polícia Federal, a pedido de André Mendonça, apresentou mensagens e outros registros que indicariam contatos entre Vorcaro e Moraes.
O plenário ainda não julga culpa ou eventual condenação. A discussão é anterior: os ministros precisam decidir se o procedimento foi conduzido dentro das regras e se existem elementos para abrir uma investigação formal.
A Procuradoria-Geral da República defende a anulação do relatório. Para o procurador-geral Paulo Gonet, Mendonça não poderia ter determinado à Polícia Federal o aprofundamento de informações sobre um ministro sem provocação do Ministério Público ou autorização prévia do plenário.
Mendonça contesta. Ele afirma que não determinou uma investigação específica contra Moraes, mas solicitou o levantamento da rede de influência de Vorcaro após mensagens mencionarem o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o próprio procurador-geral.
Moraes e Mendonça trocam acusações
O confronto mais direto ocorreu entre Alexandre de Moraes e André Mendonça.
Moraes afirmou ter testemunhas de que Mendonça teria pressionado pela inclusão do nome dele na apuração. Também acusou o colega de estar a serviço de um grupo político envolvido na tentativa de golpe de Estado.
Mendonça interrompeu a fala e reagiu: “Mentira, mentira, mentira”. Quando Moraes afirmou que apresentaria testemunhas, Mendonça respondeu que elas mentiriam.
Antes do bate-boca, Mendonça havia denunciado a existência de uma suposta “PF paralela”, que estaria monitorando integrantes do Supremo. Moraes rebateu com a pergunta: “Quem tem medo da Polícia Federal?”.
Gilmar acusa viés eleitoral
Gilmar Mendes também elevou o tom contra André Mendonça. O decano afirmou que houve “inequívoco viés político-eleitoral” na condução do caso e relacionou a divulgação das informações ao ato bolsonarista realizado em 7 de Setembro.
Segundo Gilmar, o relatório foi tornado público às vésperas da manifestação, que teve ataques a Moraes e manifestações de apoio a Mendonça.
“Isso não se faz. Pessoas decentes não fazem isso”, declarou Gilmar. Mendonça interrompeu e respondeu: “Não seja leviano. Não aponte o dedo para mim”.
Gilmar ainda usou as expressões “pixuleco” e “boneco eleitoral” ao criticar a condução do episódio.
Fachin e Dino discutem sobre regras
O presidente do STF, Edson Fachin, também teve um desentendimento com Flávio Dino.
O primeiro atrito ocorreu quando Dino pediu um aparte a Dias Toffoli, que estava com a palavra. Fachin afirmou que a autorização deveria ser solicitada à Presidência da sessão.
Dino rebateu e citou o regimento do Supremo. Após a discussão, Fachin leu o artigo 133, que permite a concessão da palavra pelo presidente da sessão ou pelo ministro que estiver falando.
A divergência aumentou quando Dino questionou a decisão de Fachin de assumir a condução dos procedimentos relacionados ao Banco Master. O ministro afirmou que admitir esse tipo de mudança poderia abrir espaço para “autoritarismo, despotismo e tirania” nos tribunais.
Fachin negou ter retirado processos dos relatores de forma irregular.
Dois ministros não votarão
Kassio Nunes Marques declarou-se impedido e deixou a sessão. Ele afirmou que o caso pode produzir repercussões político-eleitorais e disse não se sentir confortável para participar do julgamento.
Nunes Marques também negou informações divulgadas sobre supostos pagamentos do Banco Master ao filho dele. Segundo o ministro, o filho nunca prestou serviços nem recebeu recursos da instituição.
Dias Toffoli declarou-se suspeito por motivo de foro íntimo. Ele permanecerá no plenário, mas não participará da votação.
O que pode acontecer na retomada
Até a suspensão, nenhum voto sobre o mérito havia sido apresentado. A retomada deverá começar pela definição do alcance do julgamento.
O plenário poderá adiar a análise para 23 de setembro e reunir os casos de Moraes e Mendonça. Outra possibilidade é manter a sessão e decidir primeiro se o relatório da Polícia Federal é válido.
Somente depois dessa etapa os ministros poderão avaliar se os elementos justificam a abertura de uma investigação contra Moraes.
A sessão desta terça-feira é inédita porque representa a primeira vez que o Supremo se reúne para deliberar sobre uma possível investigação contra um de seus próprios integrantes.
Fonte: Fatos Marcantes
Foto: Divulgação




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