Bastidores: Polícia Civil cria regra para barrar delegados que usavam a mídia para se promover

Uma portaria assinada pelo delegado-geral da Polícia Civil do Amazonas, Bruno de Paula Fraga, passou a impor regras rígidas para entrevistas, uso das redes sociais e divulgação de informações por policiais civis. O texto oficial cita a necessidade de padronizar a comunicação e preservar a imagem da instituição. Mas, nos bastidores, a medida é vista como uma reação ao uso da estrutura da polícia para promoção pessoal.
Segundo apuração, a portaria foi motivada por casos envolvendo delegados que vinham utilizando operações e investigações para se destacar na mídia, com objetivos eleitorais ou comerciais. Um deles chegou a divulgar cursos preparatórios usando a imagem institucional da Polícia Civil. Outro é apontado como pré-candidato a cargo público. A avaliação dentro da própria cúpula da Segurança é de que a exposição desses servidores passou dos limites e vinha sendo usada como trampolim político.
Exposição seletiva e mídia nacional privilegiada
Entre os episódios que acenderam o alerta está a prisão de uma mulher que se apresentava como médica dentro de uma academia. Apenas uma equipe da TV Globo foi chamada para acompanhar a operação, que ganhou destaque nacional. O fato gerou incômodo em outros veículos de comunicação locais, que sequer foram informados sobre a ação.
Outro caso semelhante foi a cobertura da morte da ex-Cunhã-Poranga Djidja Cardoso, que teve detalhes repassados com exclusividade a um programa de rede nacional, sem que a própria cúpula da Polícia Civil fosse previamente comunicada. A preferência por emissoras específicas alimentou a desconfiança de que havia interesses pessoais na escolha de quem teria acesso às informações.
Apoio de delegados e jornalistas locais
A maioria dos delegados — especialmente os que não utilizam a mídia como vitrine — é favorável à nova regra. Segundo fontes da corporação, o objetivo é justamente proteger a imagem da instituição e coibir condutas que colocam interesses pessoais acima do serviço público. Nenhuma entidade de classe da categoria se posicionou contra a portaria até o momento.
Entre os jornalistas de veículos locais, a medida também é vista como positiva. Profissionais que cobrem segurança pública relatam já ter sido preteridos em reportagens, mesmo após semanas de apuração, por decisões de delegados que escolhiam entregar o caso com exclusividade a veículos de alcance nacional. Para esses repórteres, a portaria ajuda a equilibrar o acesso às informações e evita que a comunicação pública seja usada para favorecer interesses individuais.
O que diz a portaria
A nova norma determina que só o delegado-geral ou a assessoria de comunicação da Polícia Civil podem autorizar entrevistas ou liberar conteúdo relacionado a investigações. O texto também proíbe:
• Divulgação de imagens e informações sem autorização;
• Uso de armamentos, símbolos da instituição ou fardamento para promoção pessoal;
• Participação em reportagens ou criação de conteúdo em redes sociais sobre operações policiais sem permissão;
• Comercialização de produtos ou serviços usando a imagem da Polícia Civil.
O descumprimento pode gerar punições administrativas e, em alguns casos, até responsabilização criminal.
A portaria mexeu com estruturas internas e externas da segurança pública e da imprensa. Para uns, é censura. Para outros, uma medida necessária para restabelecer o equilíbrio institucional e o respeito aos princípios do serviço público. O impacto real da decisão será sentido na prática — nos corredores da polícia, nas redações e, principalmente, no acesso da sociedade à informação.
Fonte: Fatos Marcantes
Foto: Beatriz Sampaio




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