Eleitores apontam assédio por candidatos para venda de votos

Cerca de 22% dos eleitores afirmam já ter recebido propostas para venda de voto em troca de benefícios. Prática é considerada crime
Ao longo da história brasileira, a compra de votos se consolidou como uma prática recorrente. De cestas básicas a dinheiro em espécie, candidatos oferecem o que estiver ao alcance na tentativa de conquistar apoio e garantir espaço na política. A pesquisa Ipsos-Ipec Percepções sobre compra de voto, com parceira do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), mostra que cerca de 22% dos eleitores já foram abordados por candidatos ou cabos eleitorais com ofertas de benefícios ou vantagens em troca do voto.
A pesquisa também aponta que, em relação à frequência com que a prática de compra de voto acontece, 39% dos entrevistados disseram que no período das eleições “sempre” acontece no bairro ou cidade onde moram. Essa percepção é ainda maior entre aqueles que já receberam propostas, em que a incidência atinge 64%. Além disso, 17% disseram ver a prática frequentemente, 13% às vezes, 9% raramente e 11% disseram que nunca acontece. O crime é mais comum na Região Nordeste (32%), em relação ao Sudeste (18%) e ao Sul (13%).
O diretor do MCCE, Luciano Caparroz Santos, argumenta que a prática trata-se de um problema cultural e estrutural que precisa ser transformado. “Muitas pessoas procuram resolver problemas pessoais e acabam prejudicando toda a coletividade. Nós temos um lema: ‘Voto não tem preço, tem consequências’. De forma didática, tentamos convencer as pessoas de que o voto tem capacidade de promover transformações na comunidade e na sociedade e deve ser utilizado em benefício da coletividade”, enfatiza.
Santos lembra de uma prática muito comum entre os candidatos: a promessa de regularizar terrenos. “Hoje existem as mais diversas formas de compra de votos. As ocupações de terrenos em Brasília, que não poderiam ser utilizadas, são um exemplo. Muitas vezes, essas ocupações acontecem porque um candidato promete regularizá-las. Tudo aquilo que envolve a oferta de algum benefício em troca de apoio eleitoral configura compra de votos. Oferecer um cargo ou qualquer outra vantagem também caracteriza essa prática”, salienta.
Pressão
Segundo o estudo, a população entende como compra de voto oferta de dinheiro (76%), promessas de emprego (53%), distribuição de cestas básicas (43%) e doação de materiais de construção (42%).
A pesquisa revelou, também, que 18% dos entrevistados disseram conhecer alguém que já sofreu ameaças, pressão ou intimidação para votar em um determinado candidato. Grande parte (72%) diz nunca ter sofrido ou conhecido pessoalmente alguém que tenha passado por essa situação. Apenas 5% dos eleitores disseram já ter passado por algum tipo de intimidação. Já o percentual de entrevistados que conhecem alguém que passou por essa experiência é relativamente maior entre os com ensino superior (23%) em relação aos que possuem apenas ensino fundamental (13%).
Além disso, entre os que já receberam propostas, o índice é mais alto na população de 25 a 44 anos (26%) em comparação com o grupo de 60 anos ou mais (13%).
A compra de voto para vereador é a mais comum, com 59%, seguida pelo cargo de prefeito, com 43%. Também apareceram na pesquisa as posições de deputado (16%), governador (10%), presidente (7%) e senador (5%). Somam 12% os que não se lembram para qual cargo houve proposta de compra de voto.
De acordo com a percepção de 89% dos entrevistados, os candidatos eleitos por voto comprado não vão trabalhar para os interesses da população, mas, sim, em benefício próprio.
Santos entende que o mais importante no processo eleitoral é escolher representantes capazes de melhorar a qualidade de vida de toda a população. “Quando o eleitor vende o seu voto, ele entrega um cheque em branco ao candidato que o comprou. Depois da eleição, esse candidato não dará satisfações, porque entende que já pagou por aquele apoio”, ressalta.
O advogado e consultor jurídico Gilson Dias lembra que, desde 1999, a prática é considerada um crime, com pena de até quatro anos. “O crime de compra e venda de votos é corrupção eleitoral: ativa para quem compra e passiva para quem vende. A reclusão pode, inclusive, resultar em regime fechado, além do pagamento de cinco a 15 dias-multa. Então, a multa pode chegar a valores consideráveis, algo em torno de R$ 15 mil ou R$ 20 mil”, explica.
Importância do voto
Para Dias, o combate à corrupção eleitoral deve começar na educação. “Na minha visão, isso deveria fazer parte da educação pública. Deveria ser inserido na escola mesmo, desde as primeiras séries, desde o ensino fundamental. Uma disciplina voltada para educação política. E não apenas para quem vai votar saber da importância do voto, mas também para quem vai exercer um cargo público”, aponta.
Ele acredita que a Polícia Federal deve investir mais nas investigações no período eleitoral. “Acho que são duas frentes importantes: a preventiva, baseada na educação, produz resultados no médio e longo prazo; e a repressiva, que pode ajudar a conter o problema no curto prazo”.
Santos, por sua vez, destaca a campanha “Voto não tem preço, tem consequências”, que está sendo retomada neste ano. “Depois de 26 anos da aprovação da lei da corrupção eleitoral, imaginávamos que esse problema já estaria mais bem encaminhado, mas ele continua acontecendo. Por isso, estamos retomando essa campanha para demonstrar à população a importância de escolher bem seus representantes, para que eles atuem em benefício de todos”, frisa.
O diretor do MCCE menciona a enorme influência do Poder Legislativo. “Geralmente existe mais debate sobre a escolha do presidente da República e dos governadores, mas deputados federais, estaduais, distritais e senadores têm papel fundamental, porque o Congresso Nacional exerce atualmente um poder muito grande; em alguns aspectos, até maior do que o do próprio Poder Executivo”, argumenta.
Fonte: Correio Braziliense
Foto: Valdo Virgo




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