Desembargadora que reclamou de “escravidão” recebeu R$ 91 mil em março e caso reacende debate sobre salários no Brasil

A fala da desembargadora Eva do Amaral Coelho, do Tribunal de Justiça do Pará, ganhou repercussão nacional após ela afirmar, durante sessão da Corte, que restrições aos chamados penduricalhos poderiam levar a magistratura a um “regime de escravidão”.
A declaração passou a ser ainda mais debatida após a divulgação dos valores recebidos. Em março de 2026, a magistrada teve rendimento líquido de R$ 91.211,82. Já no primeiro bimestre do ano, os ganhos somaram cerca de R$ 227 mil, conforme dados públicos do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que reúne informações de remuneração do Judiciário.
O episódio ocorre em meio à decisão recente do Supremo Tribunal Federal. O teto do funcionalismo em 2026 é de R$ 46.366,19, equivalente ao salário de ministros do STF. Apesar disso, a Corte admitiu a possibilidade de pagamentos adicionais — os chamados penduricalhos — que podem elevar a remuneração em até 70% acima desse valor, dependendo da composição das verbas.
A comparação com a realidade da maioria dos brasileiros ampliou a repercussão. O salário mínimo em 2026 é de R$ 1.621, valor pago a partir de fevereiro. Segundo dados recentes do IBGE, a maior parte dos trabalhadores brasileiros recebe até dois salários mínimos, ou seja, até cerca de R$ 3.200 por mês.
Esse contraste coloca lado a lado duas realidades distintas: enquanto uma parcela reduzida do funcionalismo recebe valores elevados, milhões de brasileiros vivem com renda limitada para cobrir despesas básicas.
A discussão não gira em torno de desconsiderar a importância da magistratura, mas de evidenciar a distância entre os diferentes níveis de renda no país. Em um cenário de desigualdade, declarações como a feita durante a sessão acabam ganhando outro peso na opinião pública, especialmente quando partem de quem está entre as faixas mais altas de remuneração.
O caso reforça um debate recorrente no Brasil: mais do que quanto ganha uma categoria, o que está em jogo é o tamanho da diferença entre o topo e a base — e como isso é percebido pela sociedade.
imagem: TJPA




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