04/06/2026

MP-AM discute limites nas redes sociais e exposição de promotores gera debate interno

         

Uma discussão incomum marcou a sessão extraordinária do Colégio de Procuradores de Justiça do Ministério Público do Amazonas, realizada nesta quinta-feira (19). Em pauta, a regulamentação da política de comunicação social da instituição — tema que acabou abrindo espaço para um debate direto sobre o comportamento de membros nas redes sociais.

O procurador de Justiça Públio Caio, relator do processo interno, chamou atenção para o que classificou como excesso na exposição pessoal de promotores, especialmente quando há mistura entre a atuação institucional e conteúdos de autopromoção.

“Colegas que ao mesmo tempo estão de beca, em júri ou julgamento, e ao lado mostram resultados de academia, músculos… mistura as coisas de um jeito que não pega bem”, afirmou.

A fala gerou reação durante a sessão. A procuradora de Justiça Anabel Vitória de Souza ponderou que há um movimento de endurecimento que pode atingir principalmente membros mais jovens. “Nós estamos travando tudo. Será que é assim que a gente muda a cultura? Daqui a pouco tem menino sendo processado por pouco, às vezes por falta de maturidade”, disse.

Ela também destacou que é natural o desejo de reconhecimento. “Todo mundo que gosta de trabalhar quer ver seu trabalho sendo reverberado. Às vezes, no Instagram pessoal, a pessoa quer mostrar o que está fazendo”, completou.

O relator rebateu com um posicionamento mais rígido, ancorado no princípio constitucional da impessoalidade. “Quem entra no Ministério Público sabe que está abrindo mão de parte da vida privada. Ele tem que frear a vaidade para que a impessoalidade prevaleça”, afirmou.

Na sequência, reforçou que o reconhecimento deve vir do desempenho profissional. “Que seja pela honradez, pela dignidade, pela pontualidade, pela qualidade do trabalho. É isso que dá credibilidade”, disse.

Em um dos trechos mais contundentes da discussão, Públio Caio afirmou que a busca por exposição pessoal pode ser incompatível com a função. “Se quer reconhecimento social maior, vá ser cantor, artista, youtuber… mas saia do Ministério Público”, declarou.

O debate ocorre no contexto da elaboração da nova política de comunicação social do MP-AM, alinhada a diretrizes do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) e em diálogo com práticas também discutidas no âmbito do Judiciário.

Entre os pontos em análise estão justamente os limites entre vida privada e função pública, o uso de símbolos institucionais em redes sociais e a necessidade de orientações mais claras para evitar excessos e possíveis processos disciplinares.

A discussão expõe um dilema cada vez mais presente nas instituições públicas: até onde vai a liberdade individual nas redes sociais e onde começa a responsabilidade institucional.

Fonte: Fatos Marcantes

Foto: Divulgação

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