Contra Manaus ou Belém, o preconceito persiste

Por Serafim Corrêa
Quando a UNFCCC (Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima), o braço da ONU que cuida da questão climática, decidiu realizar a COP-30 em Belém, todos já conheciam a realidade da Amazônia. É uma região quente, de chuvas intensas, localizada acima da Linha do Equador, portanto em área tropical.
Era evidente que cidades amazônicas não possuíam a mesma estrutura de hotelaria de padrões europeus ou americanos. A meu ver, exatamente por isso a COP-30 foi designada para a Amazônia: para que o mundo pudesse sentir e vivenciar as condições de vida na região.
No entanto, logo após a escolha, vieram os ataques — especialmente de vozes do Sul e Sudeste — contra Belém como sede do evento. Argumentavam que seria “melhor no Rio, São Paulo ou Belo Horizonte”. De lá para cá, a contestação se transformou em hostilidade aberta contra a Amazônia.
O paralelo com a Copa de 2014 em Manaus
Esse cenário remete à Copa do Mundo de 2014, quando Manaus foi anunciada como uma das cidades-sede. A reação imediata foi de críticas e descrédito: “Manaus não tem estádio nem rede hoteleira para receber turistas”, “se começar a construir agora, não vai dar tempo”, “não tem futebol e fica muito longe”.
Naquele momento, ainda devemos reconhecer o então ministro dos Esportes, Aldo Rebelo, que defendeu a escolha de Manaus com firmeza, sendo alvo de duras críticas da imprensa do Rio e de São Paulo.
O preconceito histórico contra a Amazônia
O preconceito, porém, não se restringe à COP ou à Copa. Ele é histórico. Um exemplo remonta à década de 1960, quando a juventude secundarista de Manaus sonhava com a refundação da Universidade Federal do Amazonas.
O projeto foi encampado pelo deputado federal Arthur Virgílio Filho, apoiado por Almino Afonso. A oposição veio das bancadas do Sudeste, que diziam: “Pra que uma universidade em uma cidade sem professores nem alunos?” ou ainda que “para a Amazônia basta a Universidade do Pará”.
A luta prevaleceu, e a Universidade do Amazonas foi recriada em 1962 pela Lei nº 4.069-A, sancionada pelo presidente João Goulart e pelo primeiro-ministro Tancredo Neves, em período parlamentarista.
Um preconceito que resiste
Seja em Manaus ou em Belém, o olhar de desconfiança é o mesmo — e vem de longe. Somos, afinal, todos filhos do Grão-Pará e Rio Negro, marcados pela mesma história e pelas mesmas resistências impostas de fora.
COP 30, em Belém: Vila COP 30. — Foto: Rodrigo Pinheiro / Ag.Pará




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